20070731
20070724
mudei de idéias
aqui vai uma reclamaçãozinha sobre o acidente em congonhas: por causa disso, meu livro surrealism and painting (andré breton) vai demorar, em média, quarenta e duas semanas para chegar.
tags: andré breton, congonhas, surrealismo
20070722
martelo & cinzel
o binhas começou - E se a realidade fosse algo fantástico, muito além da matéria crua e da rocha dura? (...) Quem sabe, nos faltem apenas os instrumentos do escultor?
nunca havia pensado nessa metáfora, mas parece servir bem. temos sempre diante de nós um bloco de rocha sólida, aparentemente impenetrável e imutável (e não estou falando só dos obstáculos típicos da vida, mas principalmente também de mistérios universais, todas as verdades que achamos que sabemos e o que não sabemos que não sabemos) - é mesmo demasiado parecido com as minhas aulas de escultura. sabendo escolher os serrotes, cinzéis, grosas, limas e lixas, aproveitar todas as possibilidades da pedra e por onde começar, depois de uns dias aquilo deixa de ser um pedaço de matéria inorgânica para tornar-se o que quisermos. e as possibilidades são infinitas.
mas não adianta de nada ter os instrumentos certos se a princípio tudo o que se consegue visualizar é um bloco de rocha sólida...
20070721
harry potter & a outra dimensão
confesso que, como é desde os onze anos de idade, tou ansiosa pra ler harry potter de novo. que bosta. da última vez, há dois anos, passei duas madrugadas inteiras lendo o half-blood prince em inglês no microsoft word. tinha alucinações, meus olhos secavam e se enterravam nas órbitas, mas eu não parava. não - a integridade de um obsessivo não pode ser ferida, então, se comecei esta ladainha aos onze anos de idade, tenho de terminá-la aos dezoito com a mesma dignidade de antes. ou seja: hesito entre ir agora mesmo comprar a merda do livro ou abrir o arquivo em pdf que acabei de receber. ia ao lançamento na fnac ontem às oito da noite, mas... ah. a noite não estava propensa a programas mais longos que o caminho até a padaria e outro maço de cigarros.
isso porque tinha de estar trabalhando nos cem desenhos de observação que tenho de entregar quando as aulas voltarem. só que mais uma vez, com um golpe de sorte no meu grande rabo, a data de entrega foi adiada e posso aproveitar mais um bocadinho os últimos momentos de férias ociosas, em que fazer testes estúpidos e ler harry potter significa o mundo todo.
enquanto isso...
(17:32) Lord Gabe MacArthur: | a cada minuto que vc ficar fora, é um spoiler |
|---|---|
(17:32) Lord Gabe MacArthur: | snape é o novo diretor de hogwarts |
(17:33) Lord Gabe MacArthur: | o harry perdeu um braço |
o resto não li porque fechei a janela em desespero. mas depois fiquei sabendo que só cinco dentre os muitos que recebi são verdade. o harry perdendo um braço seria empolgante! e todo mundo tem que morrer pra essa merda não ter possibilidade de continuar. a não ser que me apareça a j. k. rowling com harry potter & a outra dimensão.
sim, sou alienada e não vou dizer nada sobre desastre em congonhas, nem morte de acm, nem exposição de cartazes produzidos durante o período de greve da faculdade. já vi e discuti o suficiente sobre estes assuntos, e, lamento imenso, este blog não é sobre a minha decepção com o país em que vivo. o silêncio aqui não tem papel de vista grossa, mesmo eu não tendo talento algum para politizadora e militante das massas oprimidas - eu só acho as notícias tão absurdas que seria redundante ficar apontando e lembrando como estamos na merda. não quer dizer que não tenha opinião sobre nada disso. o silêncio é só o meu cansaço. eu não acho que posso mudar o brasil. algumas pessoas nascem pra isso, vivem, morrem, mas não eu; falo aos eternos deslumbrados com a vida e o mundo, que sabem ser completamente inúteis para mudar as estruturas concretas - concretas: ainda há o objetivo de sensibilizar - das coisas e fascinados demais com tudo para sequer tentar fazê-lo. eu sou do tipo que conta as histórias, fantasia, fabula, pinta e colore, não importa se é feio, se é grotesco, se é desesperador. tudo é sentimento, e belo por isso. sou do tipo que leva a vida como ela me leva, decisões que vêm de impulso e entranhas, nunca nada verdadeiramente racional, sempre apaixonada pelo que me acontece pelo caminho, mas sem realmente saber como cheguei lá. mudar a história não é comigo. prefiro falar de harry potter.
tags: brasil podre, deathly hallows, férias, harry potter
20070717
soslaio
a despeito do que diz O Desenhista, que é uns anos mais novo que eu, não consigo dar ouvidos às auto-críticas sem pensar Mas foda-se, isto é muito mais cheio de sensibilidade do que os rabiscos de diversos colegas de faculdade por aí...
e recorda-me um passado próximo (embora não pareça), em que a angústia surgida ao desenhar, ao fazer cada traço, transparece nas expressões duras e contraídas -- o medo.
20070715
20070714
caderninho da faculdade, I
porque sempre foi impossível só anotar e olhar para o professor.
de h.p. lovecraft. começou com um rabisco tosco na aula de mídia I; feito com canetas esferográficas pilot 0.5, uma preta e outra vermelha, e uma espécie de giz laranja.
impressões digitais. desenhei salvador dalí no indicador esquerdo e carimbei a aula de semiótica inteira - afinal, são signos indexicais E icônicos.
20070713
on set
a uma dada hora o tédio vence os limites. nem as conversas com as pessoas ao lado, todas novas e também tão sozinhas, distraem a impaciência de quem acordou às cinco, quatro da manhã só para estar pontualmente às sete no edifício ondulado que possui uma sociedade própria - os copanenses não têm de pisar na rua nem para emergências podológicas.
mas as galerias criam uma corrente de ar que percorre às voltas todos os corredores, e as cadeiras de plástico foram se amontoando num beco onde não havia silvos nos ouvidos. entre dormidelas, cochilos e roncos seguidos de um despertar assustado, só eu me recusei a sequer fechar os olhos por mais de dois segundos para sentir que estava realmente precisando de sono. ao invés disso, puxei uma folha, um lápis 2b, uma caneta esferográfica preta pilot 0.5 e uma lapiseira infantil de pontas coloridas. ela encostada ali era uma daquelas que não se sabe se é demasiado nova ou demasiado velha, e dormia tão tranquila...
disse a ela que não podia dá-lo porque ia usar na faculdade, mas era só o ciuminho com tudo o que faço para mim. ela estava dormindo...
ao fim das filmagens, pediu-me se podia pegar outra vez o desenho. só para mostrar ao pai. abri minha mochila contente por ver que ela tinha mesmo gostado. pegou a folha, olhou ainda um instante e virou ao pai.
- sie *(@#&(*& YE*(W8e2#@¨ *&(!¨ EWYEY*)(@ @*( )_(_))()&*)(#@¨ #*@¨# (@)*@)$*@ *_REUQU() EJJU)U@)(.
e ele respondeu:
- &$#&UEWO2980 YDwW)(EU #@*(&(#@& YR*(EWYE *(@&(#@!
oh deus, são alemães!
acho que se não tivesse mudado de idéias e oferecido-lhe o desenho, ia sentir um mal estar e qualquer coisa incompleta toda vez que olhasse para ela, dormindo encolhida em seu casaco vermelho desbotado, os cabelos de ouro cinzento caindo pelos ombros, o rosto sereno e os olhos fechados que na hora não havia como ter percebido serem tão azuis. talvez nunca mais a veja, mas ela, ao menos, sempre que encontrar por acaso o pedaço de sulfite vai-se lembrar de que alguém a viu - e encantou-se.
(ha é, como foi? sussa. minissérie de treze capítulos, alice - nome provisório, sim, inspirado em alice no país das maravilhas, quem diria?, mas com uma história urbana e caótica. vai ao ar ano que vem pela hbo, o que filmamos foi o piloto. diverti-me o dia inteiro com os novos colegas feitos na hora, e dois deles não só sabem quem são os mars volta como foram ao show de 2004. malditos. figurante é meio como um rebanho, a pastora indica-nos o caminho, os cães nos cercam, latem e botam uma pressão, fala mais baixo! sai daí, idiota, vai aparecer no quadro! fiz duas brilhantes atuações, uma em que paro e vejo a vitrine do brechó, e outra em que acendo/fumo/fumo/apago o cigarro - foram quatro takes, não sei qual vão usar. e que acabou por ser o menos relevante das doze horas que passei com o pessoal da produção: os setenta reais de cachê. quase que fui-me embora sem receber, juro. mas claro que fiquei feliz com o dinheiro, e saí de rolê com os amigos logo depois pra já gastar uma cota.)
av. paulista, 01.00
- MOÇA...
- o quê?
- olha... a gente pode falar com você um pouquinho?
- ...desculpa, tenho de ir para casa!
- mas é só um minutinho!
- são uma da manhã, sério mesmo, tenho de ir, tão me esperando.
- não! ouve só, ...que isso, que isso, tá com pressa por quê?, não precisa!
(gelo no estômago)
- eu tenho de...
- não precisa se apressar não, senão a gente vai ter que te machucar. ouve só, se liga na idéia, a gente só quer dinheiro! e o celular.
(as moedas no bolso!)
- olha, eu só tenho isto.
- e o celular?
- não tenho celular!
- valeu então, tia.
NENHUM NÓIA CAGÃO ME ROUBA A MERDA DO CELULAR, SANGUE BOM! TÃO TIRANDO? VÃO DAR O RABO PRA COMPRAR PEDRA, CASQUEROS DO CARALHO!
tão ligeiros, eles se acham, que nem perceberam a mochila de 20kg que eu carregava nas costas.
20070710
precisam-se de paulistanos mudernos
primeira coisa a considerar: a plastic dreams, balada ali quase na esquina da rua da consolação com a al. franca, é uma merda. ao menos a entrada valia também como consumação, caso contrário teria me recusado a pisar lá dentro por $10. oh well, nunca gostei de baladas na vida, acho um bocado individualista, mas era a banda da amiga do pedrinho, então vamos lá. a polý também estava presente e tínhamos todos tomado chuva. o cabelo dela, com quinze descolorações e mais históricos de tinturas que o meu, permaneceu resplandescente e secou de uma maneira tão bela que parecia arranjado. o meu claro que tomou vida própria.
esta é das minhas fotos preferidas da noite. só não me perguntem o nome da banda.
convém aqui abrir um parênteses:
(não, vocês não têm idéia de como realmente era a plastic dreams. é quase um clube GLS, mas sem ninguém nunca tê-lo definido - os gays aparecem por lá instintivamente. a música saltava de grandes sucessos pop para uns eletrônicos medíocres. tomei uma tequila, fui ao banheiro unisex mijar numa cabine sem porta. uma mulher-onça subiu no palco à frente do dj e rebolava-se toda, os poucos homens heteros se aglomerando aos pés dela, até que um foi puxado para dançar também. ok, era um showzinho, movimentos obscenos eram mais do que esperados; ela enlaçava as pernas no pescoço dele e simulava sexo oral em diversas posições, as bichas gritando AAAAI QUE NOOOJO, ela o deitou no chão, tirou-lhe a camisa...
...e começou a masturbá-lo. até arrancou as cuecas, mas ele foi persistente e, cobrindo ali a região nobre, desceu do palco - pra tristeza dos gays, que até tinham começado a se empolgar abstraindo-se da presença da mulher.)
bem, depois de mostrar os seios tatuados, o show da mulher-onça acabou-se e nós fomos dançar a melhor música da noite até então, i can't get you out of my head, kylie minogue. távamos já meio bêbados e nem percebemos quando um tipo nos abordou. ele gritou um HEY, VOCÊS, e nós, NÓS?, sim, venham cá um instantinho. eu disse: porra, justo na melhor música da noite? vê se não demora, hein. quié?
- A HBO vai gravar uma série televisiva aqui no Brasil em pareceria com a Rede Globo, vocês não estariam interessados em ser figurantes, por acaso...? Mas assim, não é só fazer parte de um bolinho, são papéis importantes, com close de rosto e tudo. Preciso só do nome, telefone e uma foto de vocês (que vamos bater agora).
- haaaa oook, hehehe, HBO, pois não? (e se for um golpe para tirarem os meus rins depois de anestesiada, toda essa parada de mercado negro, vou acordar numa banheira cheia de gelo e com talhos na altura da cintura, percebo logo! ou então vão me jogar numa sala com uma cama e uma câmera e filmar o meu estupro! mas e se for realmente a hbo... no brasil? por que no brasil? hmmm, muito esquisito pra ser verdade, e por que chamariam-me a mim?) ok, meu nome é beatriz oliveira, meu celular... é de campinas, não há problema?, o código é 19 e...
entrou uma mulher alta, esguia, toda elegante com uma câmera fotográfica profissional na mão e tirou-me uma foto de frente, os cabelos nem quero saber como saíram, depois da geração espontânea causada pela chuva. passei a duvidar um bocadinho menos. afinal, o que poderiam fazer com um nome, um número de telefone e uma foto?
mas hoje, quase dois meses depois, vi um número desconhecido no visor do celular. eu não atendo números desconhecidos - nunca. já basta a vez em que me ligaram de dentro da prisão. olhei de novo pro aparelho vibrando...
- alô.
- beatriz? é o vitor, aqui da produção da HBO, eu peguei seu nome, telefone e foto na plastic dreams, lembra-se?
- HAAAA SIIIIM...
resumindo: quinta-feira, dia 12, das 6 às 6, com direito a comida à vontade e o melhor de tudo - CACHÊ! vou ser uma jovem paulistana muderna que compra roupas em brechó. e aparentemente só ligaram a mim, meus amigos não vão.
chupem!!! e desejem-me sorte.
tags: balada, hbo, mulher-onça, plastic dreams
20070707
pedra sem pudores
e quando percebi já estava sozinha de novo, minha amiga foi-se na bicicleta com ele, como passageira, depois de uma rápida volta na praia à noite. medinhos ocasionais. santos!, estamos em santos!, dissemos o dia inteiro. mal nos incomodava a praia cheia, sentávamos nos bancos e as crianças gritavam, foda-se, é a praia, é santos. mas voltou tudo ao normal, sozinha pelas ruas de novo, aqui ninguém nunca está comigo. voltar para casa? ainda eram onze e meia, tinha levado a chave para justamente poder chegar mais tarde e não ter de falar alterada com a avó (aquela lá é bem capaz de me esperar acordada, todas as séries televisivas fazem-lhe mal, sabem). sem condições. fui andando, fumei um cigarro. quando cheguei quase na esquina do estrela-ouro, percebi que ainda não se passara muito desde as onze e meia, e virei subitamente a esquina em direção ao rockabilly.
pedi uma bohemia long neck e um hambúrguer com rúcula, tomate seco e mussarela de búfala. havia também uma tv de plasma widescreen, primeiro futebol, depois jornal da noite. às vezes é bom fazer as coisas sem companhia, pensei. os caras atrás de mim falavam de posições sexuais. mas quando eu vou comer uma mina... a cerveja deu uma lombradinha a mais, pensei que naquele instante minha amiga já devia estar na casa dele, e parei por aí.
mas a jukebox começou com bohemian rhapsody, e eu senti que aquele devia ser o grande auge da minha vida. ou o fundo do poço.
20070704
auf wiedersehen
vou-me embora para a baixada santista, a ilha do fim de são paulo, a beira do continente, onde tudo é mais barato pelos contrabandos no porto, vende-se erva fresca à calçada da praia e as horas passam mais devagar!
faz um bocadinho de mal à garganta, mas quem se importa?
20070702
what will you do when your suntan fades?
as pessoas passam a ser opacas com uma palavra errada, um gesto errado, o conjunto disso tudo ou de outra coisa. não importa, é inevitável. três ou quatro meses, isso sem contar o período em que estive longe, já foi o suficiente para acabar com toda a vivacidade colorida que me despertava tudo:
aquela é muito folgadinha, aquele sempre força demais nas brincadeiras, aquele é meio bobo, aquela é insegura e posa de extrovertida, aquele é virgem, aquela tem uma semi-rivalidade comigo sabe lá deus por quê, aquele só mente e se calhar está meio caído por mim, aquele é uma grande criança hiperativa, aquele é meio perdido, aquela é completamente sem-noção, aquele é demasiado ingênuo, aquele experimentou coca comigo e virou nóia na semana seguinte, aquele é um tarado irritante, aquele é um entrão (literalmente, meu traseiro reclama), aquele é preguiçoso e drama king, aquele é nervosinho e waaay too passional, aquela é meio porca, aquele, ah!, aquele com certeza não toma banho, aquele se acha todo cool e muderno e artista porque os pais usam drogas, aquela não se depila, aqueles todos não sabem desenhar, aquele é manipulador, aquela é individualista, aquele é frustrado, aquela é infantil ao extremo (inclusive no traço de desenho e gostos em geral), aquele é singelo e todo perdido num relacionamento com alguém de quem não gosta mais e ainda não se apercebeu, aquela é muito feia e fala de um jeito bizarro que eu não entendo, aquele não sabe disfarçar que me olha de cima a baixo, aquela acho que é muda porque nunca a vi dizer palavra alguma...
depois de escrever isso eu reclamo que sim, (quase) todos são de meu interesse, gosto igualmente deles mesmo criticando - mas cada vez mais me dou conta de como as pessoas me cansam facilmente, irritam-me, e as viagens todas que faço são no intuito de trocar tudo pra não enjoar seriamente de nada. conseguiria eu dividir a cama com outra pessoa durante o resto da minha vida, quando até a sua respiração, a sua presença tornar-se-iam insuportavelmente incômodas, como acontece às pessoas da minha vida? há tempos que ninguém concreto me faz brilhar os olhos.
às vezes sinto que nasci pra morrer sozinha, e esta idéia não me desagrada.
20070626
NO SEX... até casar!
passei grande parte da minha madrugada lendo depoimentos de cristãos nesta comunidade do orkut. uma delícia, recheada de gente que se acha a última fruta da árvore por nunca ter beijado na boca, discussões intermináveis sobre o que é pecado e o que não é com justificativas trabalhadas a partir de um raciocínio deturpado, ou nenhum.
mas nem tudo é riso - há uma preocupação muito séria sobre sexo oral, masturbação e polução noturna serem pecado. quanto ao primeiro, apesar da maioria feminina argumentar que é nojento e coisa de homossexuais, só é permitido se o homem não ejacular na boca da mulher E usar preservativo. (penso cá comigo onde estará a camisinha mencionada na bíblia.) tudo depois do casamento, é óbvio, como diz o título da comunidade. sobre masturbação alguns ficam na dúvida, os que têm certeza de que é sim pecado dizem que os menos radicais são praticantes viciados, e tudo se resume a um glorioso questionamento espiritual: como posso me masturbar com jesus me olhando? já a polução noturna é um assunto delicado, a grande maioria acredita que, se é precedido de sonhos eróticos, é indução do demônio ao pecado da carne e devemos orar muito e jejuar para livrarmo-nos disso. se não, tudo bem, faz parte do mecanismo biológico humano, perfeitamente explicável pela ciência (cena: um cristão fervoroso com as cuecas meladas logo após acordar, num surto de culpa por não se lembrar do que sonhou).
motel? nem pensar, é lugar de prostitutas e adúlteros, cheio de satanás por todos os lados, a transpirar por todos os poros. inclusive, mais de duas pessoas atestaram vivamente que conheceram casais cristãos que resolveram dar essa perigosa quebra na rotina e acabaram com o casamento destroçado por conversões súbitas ao homossexualismo e traições de várias ordens. o que não deixa dúvidas - a causa direta, sem nenhuma discussão, é o quarto do motel. ironicamente, rolam várias tretas; gente se acusando de falso puritanismo, perversão, afirmando verdades do tipo tenho certeza de que VOCÊ não conseguiria ficar três anos sem beijar ninguém, isso é inveja da minha pureza.
só é pena os sempre presentes erros de português e concordância, depois de um tempo cansam os olhos, assim como os textos todos coloridos e em caixa alta. mas garanto, é diversão plena! e divina!
20070623
IA na folha
..............................................ai, que saudadinhas!
..............olhem uma cabeça de juliano ali logo acima da caixa de correio.
fez ontem duas semanas que estou em campinas, de volta aos Mundos Antigos, e três que minha faculdade entrou em greve; nem parece que cursei quase um semestre, a sensação é de nunca ter passado no vestibular. a reitoria da usp foi desocupada esta semana, e minha faculdade, ocupada pelos alunos. os professores furaram o movimento porque já conseguiram o que queriam (aumento salarial), deixando 50 e poucos estudantes ávidos por revolução do meu pequenino instituto espumando de raiva. vagabundos, ouço sempre sobre eles. mamando nas tetas do estado, filhinhos de papai que tiram dinheiro do feijão do preto pobre e ainda reclamam. como nunca realmente entendi qual o poder dessa arrebatadora paixão, fico de fora. não tenho sequer opinião sobre isso tudo, e porque escolho não ter - participei de assembléias, votações, discussões. protestos? nenhum. e pergunto-me se meus colegas sabem de fato pelo que estão lutando, quais as consequências disso... ou se saem gritando o que ouvem pelos corredores da faculdade.
conseguiram alguma notoriedade, e admiro a insistência. admiro quem leva a filha de um ano e pouco para dormir numa barraca na Sala Fúrio (a sério, lara, qualquer mãe pensaria duas vezes), admiro o diretório acadêmico por todas as providências e iniciativas tomadas, todo o tempo perdido com cartazes que serão rasgados (E AGORA, JOSÉ?), todas as aulas perdidas que não serão repostas devidamente. sempre há de se sacrificar algo, eu só espero que haja ali uma recompensa que justifique tanto incômodo. por enquanto, só os professores tomaram leitinho.
para não dizer que não tenho nem a mínima pendência, sou mais a favor da greve - mas só para conseguir terminar meu projeto de quadrinhos a tempo e os cem desenhos de observação, que até agora não passam de três. vida longa ao instituto de artes da unesp, e que a cidade de são paulo se abra revelando o exuberante caminho que nos conduzirá do ipiranga à barra funda. enquanto isso, minha avó insiste em meter o bedelho na minha vida e fica ligando de outro código urbano desesperada porque, pra ela, se deu no telejornal que os estudantes da usp desocuparam a reitoria, então quer dizer que automaticamente um campus específico da unesp, que não tem em absoluto nada que ver, vai voltar às aulas na mesma hora sem aviso prévio. nem pra ligar à universidade, que nem da outra vez...!
20070621
como a preguiça e o relapso podem afetar positivamente a linha de trabalho, II
.......................... ih, fodeu.
apesar de ter cortado fora algumas partes quando tirei a foto, por alguma estranha coincidência a figura do centro tem as mesmas dimensões que no original; só a resolução que tá escrotíssima. aquarela e nanquim, sobre papel não adequado a aquarela. como dá pra reparar ainda não a terminei, em princípio por um ataque de isto-podia-ficar-muito-melhor-se-eu-realmente-soubesse-fazer-direito, ai odeio muito essas pernas dela, e esta parede?, só amarela? (preguiça), e agora por imprevistos de grave ordem - pois, senhores, eu, tentando alcançar um livro na prateleira mais alta, acidentalmente derrubei todos os outros ao lado, que resolveram cair justamente em cima da minha... tampa de case de cds virgens transmutada em pote para água suja de aquarela (devia haver uma palavra pra isto)! e claro que a água caiu em todas as minhas aquarelas que sempre tão aqui por cima E alguns desenhos. claro que borrou tudo, e claro que eu entrei em desespero. vêem-se ali borrões por todos os lados, sendo o mais grave no soon-to-be chão. (aquele risco que sai do pé da taça desconsiderem, foi de um acidente anterior: derrubei o pincel em cima.)
eu poderia chorar, poderia gritar e cuspir em tudo, ficar revoltadinha e falar que minha vida é uma merda. mas não! tal pollyanna do terceiro mundo, vejo a água suja como uma bela oportunidade de modificar (e melhorar, espero) meu trabalho - vou ser obrigada a inventar remendos para os borrões todos.
vou assim, aproveitando as eventuais pequenas tragédias, improvisando nos buracos da melodia, por vezes nasce o que não se era de esperar... e por acaso pode ser o que andava à procura.
20070618
como a preguiça e o relapso podem afetar positivamente a linha de trabalho, I
20070617
4.20am
depois de todo mundo se deitar, fui ontem à sala carregando minha bolsa de dálmata (que até hoje não sei se é verdadeira ou não), como é de praxe das minhas madrugadas enquanto estou hospedada em goma de mamãe. dixavêitor, seda, destrancar o cadeado, sempre a garagem medonha e a praça mal-iluminada à frente, os barulhos da polícia ao longe e os sussurros da noite. fui acometida de uma paranóia infalível, que me faz encarar fixamente a porta por detrás do plástico do jipe toda vez, enquanto aguço os ouvidos para perceber algum barulho vindo lá de dentro, ou pior - lá de fora. demorei-me quanto mais meu medo permitiu, e voltei para ver qualquer coisa na televisão.
acendi um cigarro, apertei o botão, haaa está na warner e... foda-se, full house en español? DONDE ESTÁN LAS BOTITAS DE LOS NIÑOS? LAS BOTIIIITAS OH NO ESTO ES UNA TRAGEDIA! LAAAAS BOTIIIIITAAAAAS! QUIÉN ES NICKY Y QUIÉN ES ALEX OOOOOH NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
na hora, até pensei em ficar irritada. mas logo todo o ódio em potencial explodiu numa gargalhada, que deu origem a outro pensamento: é por isso que eu nunca vou conseguir levar meu tio argentino a sério.
tags: botitas, full house
20070616
sobre as lulas-gigantes
a architeuthis dux, a maior de todas, pode alcançar em torno de 22m de comprimento total (isto é, do manto até o fim dos dois tentáculos) e seus olhos podem ultrapassar o tamanho de uma cabeça humana. é a minha preferida, e também uma das candidatas à inspiração para o kraken da mitologia - tanto nórdica quanto grega -, resgatado agora recentemente pela trilogia de filmes piratas do caribe. pessoalmente, a história vem de longa data - quando pequena, adorava ver uma enciclopédia dos animais que tinha muitas figuras da lula-gigante (esta a architeuthis princeps) a enlaçar-se com os cachalotes, atacando navios e engolindo barcos. desde então, tenho um misto de fobia e amor por elas; desespera-me e fascina-me pensar em encontrar alguma por acaso um dia enquanto estiver nadando em mar aberto, o que certamente é bem possível. MAS TRIXIE, disseram-me, as lulas-gigantes, primeiro de tudo, gostam de mares gelados!, e segundo, elas vivem nas profundezas! ao que respondi: pois sim, muito bem, mas nada garante que eu vá viver no brasil pra sempre, e, como desconfio que eu sou uma das únicas pessoas (não-biólogas) do mundo que acompanha as notícias sobre lulas-gigantes, presumo que não seja ainda de conhecimento geral que YAH, AVISTARAM LULAS VIVAS NA SUPERFÍCIE! no japão, mas avistaram. e então? e então que elas são lindas!
são tão lindas que estes dias passou no discovery channel, às cinco da manhã, um documentário sobre a busca de cientistas japoneses por ao menos algumas imagens de uma dessas criaturas vivas. e eu, claro, fiquei ali pra ver se ia resultar em algo.é esta a melhor foto depois de muito esforço, conseguida com uma câmera que disparava flashes de 30 em 30 segundos, presa numa linha que descia a 2km da superfície e continha iscas feitas de outras lulas menores. o que aconteceu foi que a lula, ao apanhar as iscas com um de seus tentáculos, ficou presa e lutou durante horas a fio tentando se desvencilhar. não conseguiu, e deixou para trás o tentáculo que ainda se remexia, para deleite dos cientistas. mais fotos no national geographic.
nem preciso dizer que amo retratá-las, e fiz praí mil desenhos, aquarelas e até grafite em muro com lulas-gigantes e variações. temo pelo dia em que sairão do mar, revoltadas e desenvolvidas, para utilizarem seus poderosos oito braços e dois tentáculos - com ventosas providas de dentinhos que se agarram à pele - para trazer aflição aos humanos. o bico, comum aos cefalópodes, seria para lentamente rasgar a carne dos membros, fazendo a agonia se prolongar o máximo possível. então, é a vez das entranhas serem sugadas até restar a carcaça oca, onde seriam depositados os ovos. depois, o ninho hospedeiro seria lançado de volta ao mar para que as pequenas lulas, quando eclodissem, tivesem alimento e nutrientes necessários para romper o casulo que costumava ser humanóide, numa explosão de braços ventosados no fundo do oceano (um processo bem típico do micromundo que temos aos nossos pés, diga-se de passagem).
such a pretty sight.
mas voltando ao básico, só a estrutura dos cefalópodes é intrigante. cefalo - cabeça, podos - pés. os pés que saem da cabeça! o manto que têm logo acima não é só um prolongamento (com nadadeiras, no caso das lulas), mas sim uma espécie de tronco, que guarda toda a massa visceral e fluidos sexuais. lembro-me bem disso da vez em que dissequei um polvo no colégio, acho que no segundo ano do colegial (ou ensino fundamental II, como queiram, eu prefiro os nomes antigos) - todo cuidado era pouco, e tive de bolar um esquema de abertura para que não começasse a vazar e não estourasse nenhum órgão lá dentro com o bisturi. comecei quase pelas laterais, o polvo deitado, abrindo uma tampa que ainda se juntava ao corpo na altura dos olhos. os intestinos ficam à volta, o estômago no meio, os órgãos sexuais perto da cabeça. mas melhor que isso foi a lembrança que consegui - um tentáculo em álcool todinho para mim.
penso que uma lula não deve ser assim tão diferente por dentro, com a única diferença de ter um manto mais resistente, com uma pena e tudo, não molenga como o do polvo. enquanto não arranjo nenhuma para estudar, vou pesquisando o que posso, fantasiando as lendas dos marinheiros antigos e reproduzindo imagens da lula em situações inusitadas.
(e se a cidade acordasse um dia para descobrir uma lula-gigante morta nas ruas, os braços ainda vivos, aparecida em algum momento daquela madrugada?)
tags: architeuthis, lulas-gigantes
20070119
3o grau esquerdo
em santos
- avó... da última vez que te vi, tavas com a morte aos pés da cama. hoje, sou eu que a trago de volta à tua companhia. espero que não te importes...?
seus olhos negros e remelentos encaravam algum ponto distante. a boca, ligeiramente aberta, fazia acentuar ainda mais as rugas que tinha nos lábios, deixando entrever os dentes algo espaçados e pretos nas juntas com a gengiva. sua única reação visível foi enterrar mais as unhas aos braços da poltrona que cheirava a coisas úmidas, em que estava sentada de maneira estranhamente torta, um ombro mais alto que o outro, inclinada para frente, como se não se pudesse recostar.
- vou..., vou..., deixo-te por ora. está bem?
uma piscadela que não soube dizer se por espasmo ou resposta. saí do quarto. corria lá dentro uma brisa morna, como o ar respirado por muitas pessoas que viesse num sopro, hálitos quentes e podres. fechei a porta atrás de mim e olhei em volta a ver se ainda reconhecia o lugar onde estava. manchas amareladas escorriam do teto, peles secas de tomate em contato com o azulejo gorduroso da cozinha, cortinas mofadas que se remexiam desesperadamente ao vento quente. via mulheres nuas em todos os quadros; com cães, deitadas, desconstruídas, azuis, de tapeçaria, expressionistas, abstratas, ossudas. deparava-me com espelhos enegrecidos em quase todas as paredes. gotas de suor brotaram-me da testa.
ouvi um barulho, adentrei novamente o quarto.
a avó, agora, babava-se. via algumas partes mais densas que escorriam junto, com um tom avermelhado de sangue; os anos haviam deixado os resquícios da falta de higiene, gengivas retráteis e sinais de escorbuto. a saliva descia lentamente, até que o fio chegasse ao chão e começasse uma pequena poça que formaria só mais uma camada de sujeira no carpete poeirento.
- tás é muito magra, avó, andas a comer como se deve?, pois... não me parece. preparo-te um caldo, que achas?
a baba continuava a escorrer, os olhos ainda fixos no nada (ou talvez em algo que não pudesse perceber). então, com um ranger de ossos que há muito não se moviam, ela deu um ligeiro torção no pescoço e passou a olhar para mim. balbuciou, um caldo...?, sim avó, um caldo., não sejas parva, não como dessas merdas. pois bem... que é que comes então?, alimento-me de pus.
(pus?, foda-se.)
continuou-, vivo de enfermidades. perguntaste-me antes se me importava de trazeres contigo novamente a morte; respondo-te agora que não, não me importo, e consigo senti-la a pulsar em tua garganta. tens dor? agonizas? és febril?
e eu disse-lhe, tudo isso e mais um pouco. já não me lembro de como é sentir-me saudável. tu parasitas as enfermidades todas - eu vivo a carregá-las.
Lord Gabe MacArthur: