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20071013

sonic wind

a maior prova de que talvez esteja passando por uma transformação radical não é a mudança da minha caligrafia, nem a aceitação do meu cabelo ondulado e do rodamoinho esquisito que tenho do lado direito da testa, nem a nuvem negra que anda a pairar sobre minha cabeça e a escurecer todo lugar a que vou, nem o fato de ter começado a lavar a louça e as roupas - mas sim um episódio ocorrido agora de pouco, em campinas, casa de minha mãe.
é primavera, deitaram um cobertor sobre a cidade e os insetos voltam ao convívio. havia assistido, ontem, no animal planet, a um documentário fantástico sobre os louva-deus, construído a partir de comparações cômicas (ao menos para mim). uma delas se referia às artes marciais pela maneira como movem-se as patas dianteiras de um louva-deus prestes a atacar: neste momento, fechava um close em um de seus olhos e aparecia ali refletido um china com expressões ameaçadoras. então, a câmera abria de novo e ele atacava um sapo, uma aranha ou outro louva-deus, e eu pensava estes bichos são mesmo incríveis, vieram antes de nós e vão dominar o mundo quando já não estivermos cá. SÃO LINDOS!
eu, que sempre fui acagaçada e extremamente suspeita em relação aos insetos, em destaque os que voam e saltam. eram um pesadelo em vigília, uma ameaça tropical. tinha a plena certeza de que isto havia ficado para trás, por que o medo?, são praticamente inofensivos para nós e tudo pode acabar com uma chinelada certeira. ou... um esborrifo de veneno. mas para quê?
a janela está aberta. ouvi um zumbido no ar e não demorei a perceber o vulto que circulava em torno da lâmpada do abajour. primeiro pensei num mosquito qualquer, mas aquela sombra e aquele zzzz pertenciam a um inseto de porte maior: um besouro. não era gordo, mas compridinho e castanho, um daqueles milhões que nunca vi na vida e que provavelmente não verei outra vez; até que aparentemente ele também apercebeu-se de minha presença e saiu da cúpula do abajour para um leve rolê pelo meu quarto.
talvez o pânico que me invadiu tivesse sido causado por estar minha pele sem proteção alguma (sim, estava nua) e sensações de patas pegajosas a caminhar pelas minhas costas e barriga e seios começaram a me atormentar. fugia dele de um lado para o outro, quase derrubando tudo o que estava à frente, numa cena ridícula. até que ele aquietou-se numa das minhas almofadas e eu percebi que era a única chance de vestir-me, correr à despensa da cozinha e agarrar no veneno.
ele não havia se movido. duas, três borrifadas e não mais que isso - ele atordoou-se. pude ver as antenas a moverem-se em desespero, oscilações incertas e confusas. senti uma pontada forte de arrependimento. finalmente desagarrou-se do tecido e foi-se deitar ao chão atrás da cama. corri para vê-lo caído, esperando os últimos espasmos de agonia do pequeno, mas não estava nada ali; devia ter ido parar debaixo da cama. ainda o ouvia. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. zzzzzzzzzzzzzzzz. zzzzzzzzzzzzz...
e o barulho cessou.
acabei com uma vida. mil vezes menor que a minha, mas ainda assim, uma vida. e quando, nestes meus dezoito anos, é que isso foi motivo para comoção? estou seriamente abalada e isto é sério - eu acabei com uma vida. matei desnecessariamente, porque perigo real ele não me oferecia. matei, e esta noite não consigo conceber como é que fiz o mesmo tantas outras vezes e segui em frente como se descartasse ao lixo um objeto de que já não preciso.

20070804

talvez já fosse tempo

todas as coisas que comprei em portugal estão se estragando pouco a pouco. o anel perdeu-o uma amiga minha, a tiara foi esquartejada pela costureira perto de casa, partiu-se a fivela do cinto de vinil, a blusa do oceanário estragou-a minha empregada com o ferro quente, o casaco creme manchou-se de nanquim. não quero pensar no que vai acontecer ao meu zippo algum dia.
hoje, foi a minha avó que meteu na cândida uma calcinha preta com naipes de baralho, aquela, que eu usei na minha última noite em lisboa, uma das minhas favoritas.
tento, ao máximo, evitar quaisquer pensamentos românticos sobre os recorrentes desastres a que estes objetos são fadados, como eu cada vez pareço mais longe daquela terra e como as pessoas à minha volta estraçalham, sem saberem, os vínculos materializados, as memórias palpáveis que tenho das duas semanas que passei lá.


a calcinha ficou cheia de hematomas e descamações naquela cor castanho-avermelhada que, para mim, é a tonalidade que mais representa a morte.


não vou pensar mais sobre isso.